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Dinheiro Suspeito ( The RIP, 2026).

As vezes só precisamos relembrar o caminho. 

Em um cenário dominado por franquias infladas e thrillers excessivamente polidos, The RIP (2026) surge como uma grata surpresa ao resgatar o policial raiz,  daqueles que cheiram a pólvora , códigos morais ambíguos e personagens marcados por seus erros. Matt Damon e Ben Affleck, juntos novamente, entregam um filme que olha sem vergonha alguma para os anos 90, evocando o espírito de obras como Chuva Negra, Fogo Contra Fogo e Os Donos da Noite.

A trama baseada em eventos reais,  acompanha um detetive veterano (Damon) e um investigador de métodos pouco ortodoxos (Affleck), envolvidos em uma investigação que rapidamente deixa de ser apenas profissional. O roteiro entende algo que muitos filmes recentes parecem ter esquecido: o gênero policial não vive apenas do mistério, mas do conflito humano. Aqui, cada decisão tem peso; cada silêncio diz mais do que longos diálogos explicativos.

Matt Damon entrega uma atuação contida e melancólica, carregando no olhar o cansaço de quem já viu demais. Seu personagem funciona como o verdadeiro coração do filme. Ben Affleck, por sua vez, abraça o papel mais impulsivo e quase autodestrutivo, servindo como o contraponto perfeito. A química entre os dois é natural e nunca soa como nostalgia vazia, pelo contrário, reflete maturidade artística e sintonia dramática, os demais do elenco fazem seus papeis direitinho.

Na direção, Joe Carnahan resgata muito da força e da identidade vistas em Narc. A estética é clássica: fotografia de tons frios, uso expressivo de sombras, cenas noturnas banhadas por néon e chuva constante, fazem cidade não ser apenas um pano de fundo, mas um organismo vivo e opressivo, que molda diretamente o comportamento dos personagens. A trilha sonora discreta reforça a atmosfera sem jamais se impor à narrativa.

Um dos maiores méritos do exemplar é sua recusa em romantizar a violência. As cenas de ação são secas, rápidas e impactantes, mais preocupadas com consequência do que com espetáculo. Cada disparo, cada perseguição, cobra um preço físico e psicológico palpável.

Se há pontos capazes de dividir opiniões, eles estão no roteiro, que por vezes se mostra excessivamente explicativo, e no ritmo deliberadamente mais lento. O filme não tem pressa: prefere construir tensão aos poucos para valorizar as consequências, à moda dos grandes thrillers de antigamente. Para alguns, isso pode soar antiquado; para outros, é justamente onde The RIP encontra sua maior força.

No fim, o filme não reinventa o gênero, e nem tenta. Sua ambição é outra: lembrar por que o cinema policial dos anos 90 ainda ecoa com tanta força. Com personagens bem desenvolvidos, atuações sólidas e uma atmosfera densa, o filme se firma como um dos thrillers mais honestos e consistentes dos últimos anos.


(7,3) ***
 
Publicado no dia 19 de Janeiro de 2026.

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