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Bugonia ( Bugonia, 2025).

A maravilha está no estranho. 

“Bugonia” tem um significado curioso : e bem simbólico para o filme. Originalmente, bugonia é um termo da Antiguidade que designa uma crença pseudo-científica: a ideia de que insetos (especialmente moscas ou abelhas) poderiam nascer espontaneamente de matéria em decomposição, como a carcaça de um boi. A palavra vem do grego bous (boi) + gonía (geração).

O filme é aquele que ri enquanto aperta o pescoço do espectador. Uma sátira feroz, de humor ácido e extremamente inteligência , que se constrói a partir do absurdo sem nunca perder consciência do que está fazendo. Há momentos que me fizeram lembrar   David Lynch (diretamente), sem contar a narrativa que gera uma atmosfera de estranhamento constante, mas o filme jamais se acomoda na referência fácil: tudo soa próprio, calculado e deliberadamente desconfortável.

Dirigido por Yorgos Lanthimos, Bugonia se encaixa perfeitamente em sua filmografia marcada por universos disfuncionais, personagens regidos por lógicas morais distorcidas e uma ironia quase cruel. De Dente Canino a O Lagosta e A Favorita, o cineasta grego sempre demonstrou fascínio por sistemas sociais absurdos levados a sério demais,  aqui, ele refina essa obsessão com uma precisão quase cirúrgica.

O exemplar é uma releitura do cult sul-coreano Save the Green Planet! (2003), de Jang Joon-hwan, e essa origem é essencial para melhor entender seu tom híbrido: a mistura de comédia, paranoia, crítica social e delírio conspiratório. Lanthimos não copia o original, mas o reinterpreta sob sua lente fria e meticulosamente absurda, transformando o humor mais escrachado do filme coreano em um riso nervoso, que rapidamente se converte em inquietação.

No centro de tudo está Emma Stone (Deve ganhar o Oscar 2026) , em uma atuação espetacular. Magnética, imprevisível e sempre um passo à frente do espectador, ela domina a tela com uma presença que transita com naturalidade entre o cômico e o perturbador. Stone, que já se consolidou como uma das grandes colaboradoras de Lanthimos (A Favorita, Pobres Criaturas), parece entender intuitivamente o ritmo estranho desse universo, sustentando o filme com absoluto controle e coragem performática, seu parceiro de cena também da um show, com uma atuação memorável (Jesse Plemons).

Bugonia provoca, com ideias paranoicas que “nascem” do caos e da degradação mental , teorias conspiratórias geradas a partir do medo, do isolamento e da desconfiança em uma sociedade em decomposição produzindo narrativas absurdas que passam a parecer plausíveis, o maravilhoso filme , desestabiliza e permanece. É um cinema que desafia o conforto , convidando o público a rir, e imediatamente se perguntar se deveria estar rindo. Um filme que incomoda em sua estética  e, justamente por isso, persegue o espectador ,  muito depois dos créditos finais.

 

**** (8,0)

 
Publicado no dia 04 de fevereiro de 2026.

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