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Extermínio (28 day later, 2002)

Reinvenção do Cinema de Zumbis

Lançado em 2002, Extermínio (28 Days Later), dirigido por Danny Boyle e roteirizado por Alex Garland (ambos gênios do cinema) , ocupa um lugar central na história do cinema de zumbis ou, mais precisamente, do cinema de epidemias pós-apocalípticas. Trata-se de uma obra que não apenas dialoga com o gênero, mas o empurra para uma nova direção, redefinindo suas regras e seus medos.

O filme surge em um momento em que o subgênero parecia esgotado, preso a convenções consolidadas sobretudo pelas obras de George A. Romero: os mortos-vivos lentos, a crítica social explícita e a representação gradual do colapso da civilização. Esses elementos haviam se tornado familiares demais. Extermínio reconhece esse legado, mas decide romper com ele.

Danny Boyle opta por apresentar um mundo que já terminou. O espectador descobre esse cenário junto ao protagonista Jim (Cillian Murphy), que desperta de um coma em um hospital abandonado e encontra uma Londres silenciosa e deserta. Essa escolha narrativa ,  posteriormente reutilizada em The Walking Dead é particularmente eficaz porque elimina qualquer sensação de transição.

O apocalipse não está chegando: ele já aconteceu. O que resta é o choque, a desorientação e a tentativa de sobreviver em um mundo irreconhecível, onde as estruturas sociais simplesmente ruíram.

Um dos aspectos mais marcantes do filme está na redefinição da ameaça. Os infectados não são mortos reanimados, mas seres humanos vivos, dominados por um vírus de raiva extrema. Embora essa distinção possa parecer apenas técnica, ela carrega um peso simbólico significativo. O horror não nasce da morte que retorna, mas da própria humanidade empurrada ao limite da violência e raiva. A velocidade e a agressividade dos infectados quebram a lógica clássica dos zumbis, transformando cada confronto em algo imediato, caótico e imprevisível ,  um reflexo direto das ansiedades do início do século XXI, atravessadas por pandemias, terrorismo e colapsos abruptos.

A estética do filme reforça essa proposta. O uso de câmeras digitais de baixa resolução confere às imagens um aspecto cru, quase documental, especialmente nas paisagens vazias de Londres. Em vez de apostar no espetáculo da destruição em larga escala, tão comum em produções hollywoodianas, Extermínio encontra o terror no vazio, no silêncio e na ausência de vida. A trilha sonora minimalista, pontuada por momentos de tensão crescente, intensifica essa sensação constante de ameaça.

 O filme se interessa menos pelas estruturas sociais em colapso e mais pelo impacto desse colapso sobre o indivíduo. O verdadeiro horror não reside apenas nos infectados, mas nos próprios sobreviventes e na rapidez com que valores éticos se dissolvem diante do medo, clichê hoje em dia , e extremamente funcional.

O sucesso crítico e comercial  aliado à sua precedência em relação à HQ The Walking Dead, consolida sua posição como um divisor de águas no gênero. Mesmo que a semelhança entre as obras seja frequentemente atribuída à coincidência, é difícil ignorar o papel do filme na construção de um novo imaginário para o apocalipse zumbi: mais rápido, mais violento e profundamente conectado aos temores contemporâneos.

Ao final, Extermínio não apenas revitalizou o cinema de zumbis, mas ampliou suas possibilidades narrativas e estéticas. Ao substituir o terror da morte ambulante pelo horror da humanidade em colapso, o filme permanece atual, perturbador e essencial para compreender o porque da importância das reinvenções no gênero do terror.

(8,5) ****

Curitiba, 16 de janeiro de 2026.

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